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O bandoneón de Rufo Herrera

De um homem chamado Rufo, esperava-se que tocasse tímpanos. Mas o "duende" lhe apareceu em 1938, na província de Córdoba (Argentina), e definiu a trajetória do menino de cinco anos "de encontro ao [seu" destino".
Eram 38 botões para a mão direita e 33 para esquerda, a serem tocados por quatro dedos de cada (o polegar da direita aciona uma válvula de ar, o da esquerda ajuda a segurar o instrumento). Filho de um camponês, foi aprendendo sozinho, até ganhar fama tocando em festas e programas de rádio.
Estudou música, integrou orquestras de tango, viajou, quis fazer carreira como bandoneonista sério, interpretando Bach e Chopin. Só pediam "Garufa", tango que teve de repetir 22 vezes numa boate, antes de desistir do bandoneon e voltar-se para a vanguarda. Aqui em São Paulo, foi guiado pelo maestro Olivier Toni; na década de 1970, ligou-se ao Grupo de Compositores da Universidade Federal da Bahia; finalmente radicou-se em Minas.
Só em 1986, depois de assistir, espantado, a uma apresentação de Astor Piazzolla e seu quinteto em Belo Horizonte, para uma platéia de 1.800 pessoas, teve a coragem de "pedir perdão" e voltar ao instrumento. Acolhido nas bienais de música contemporânea e salas de concerto, seu bandoneon agora transita livremente entre registros bem diversos ou nem tanto, se o que conta é o sentido humano da música. Lançado no ano em que Rufo Herrera completa 70 anos, o CD "Bandoneon" resume boa parte dessa bela história: a vida que gira em torno de uma paixão sem nome, cujo veículo é um estranho instrumento musical.
(Folha de S. Paulo 21/04/2003
Escrito por Luciene Guimarães às 12h09
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“Escrevo tudo neste caderno que é meu confidente e amigo único.” Assim Helena Morley, pseudônimo da autora Alice Dayrell Brant, à época com apenas 14 anos, filha de pai inglês, descreve sua relação com o diário que redigiu em Diamantina (MG) durante os anos de 1893 até 1895. Uma fonte deleitosa de casos familiares, intrigas domésticas e superstições cotidianas, narrada com a inocência e a espontaneidade da menina que buscava apenas “construir seus castelos” e passar o tempo numa cidade provinciana onde pouco acontecia.
Seus relatos deram origem ao livro “Minha vida de menina”, publicado pela primeira vez no Brasil em 1942. A obra chamou a atenção de grandes escritores como Guimarães Rosa e encantou a americana Elizabeth Bishop durante o tempo em que a poeta viveu em Ouro Preto. Ela foi a responsável pela tradução do diário para a língua inglesa. Sessenta anos mais tarde, a diretora Helena Solberg resolveu filmar a experiência adolescente de Helena Morley.
“A capacidade de empatia que ela gera em nós por ser tão aberta em admitir suas fraquezas e suas falhas é o que nos faz rir de nós mesmos, porque nos reconhecemos nas suas imperfeições e incoerências”, diz a diretora sobre a decisão de adaptar o diário para o cinema. O filme “Vida de menina”, em cartaz em São Paulo e com estréia prevista para o dia 28 de outubro no Rio de Janeiro, levou seis prêmios no Festival de Gramado de 2004, incluindo o de melhor filme.
Foi rodado em Diamantina, nos mesmos lugares por onde Alice Dayrell passou: a escola onde ela estudou, a chácara da avó, as lavras onde o pai garimpava em busca de diamantes. Para a diretora, o maior desafio foi peneirar os inúmeros acontecimentos contados no diário a fim de montar o roteiro definitivo. “Fizemos cerca de 12 versões do roteiro. Evitei as complicações de um enredo e apostei mais na complexidade dos dilemas interiores dos personagens. Procurei manter o olhar, o ponto de vista da menina”, conta na entrevista abaixo.
“Vida de menina” é o primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Helena Solberg. Antes, ela havia trabalhado em projetos para canais de televisão como a HBO e o português RTP. Em 1994, dirigiu “Carmem Miranda: banana is my business”, um documentário com inserções de ficção que conta a carreira da atriz e cantora brasileira e o seu sucesso nos EUA.
Escrito por Luciene Guimarães às 11h02
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(Fundindo os vidros e os metais da minha córnea, e atirando um punhado de areia para cegar a atmosfera, incursiono às vezes num sono já dormido, enxergando através daquele filtro fosco um pó rudimentar,
uma pedra de moenda,
um pilão,
um socador provecto,
e uns varais extensos,
e umas gamelas ulceradas, carcomidas, de tanto esforço em suas lidas,
e uma caneca amassada,
e uma moringa sempre à sombra machucada em sua bica
e um torrador de café, cilíndrico, fumacento, enegrecido, lamentoso, pachorrento, girando ainda à manivela na memória;
e vou extraindo deste poço as panelas de barro,
e uma cumbuca no parapeito fazendo de saleiro,
e um latão de leite sempre assíduo na soleira,
e um ferro de passar saindo ao vento pra recuperar a sua febre,
e um bule de ágata,
e um fogão a lenha,
e um tacho imenso,
e uma chaleira de ferro, soturna, chocando dia e noite sobre a chapa;
e poderia retirar do mesmo saco um couro de cabrito ao pé da cama,
uma louça ingênua adornando a sala,
e uma Santa Ceia na parede,
e as capas brancas escondendo o encosto das cadeiras de palhinha,
e um cabide de chapéu feito de curvas,
e um antigo porta retrato,
e uma fotografia castanha, nupcial, trazendo como fundo um cenário irreal, e puxaria ainda muitos outros fragmentos, miúdos, poderosos, que conservo no mesmo fosso como guardião zeloso das coisas da família.)
Raduan Nassar, Lavoura Arcaica.
Escrito por Luciene Guimarães às 09h13
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The Tiger - William Blake. 1757–1827
TIGER, tiger, burning bright In the forests of the night, What immortal hand or eye Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies Burnt the fire of thine eyes? On what wings dare he aspire? What the hand dare seize the fire?
And what shoulder and what art Could twist the sinews of thy heart? And when thy heart began to beat, What dread hand and what dread feet?
TIGER, tiger, burning bright In the forests of the night, What immortal hand or eye Could frame thy fearful symmetry?
Escrito por Luciene Guimarães às 20h33
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xilogravuras de Oswaldo Goeldi (1895-1961)

A GOELDI
De uma cidade vulturina vieste a nós, trazendo o ar de suas avenidas de assombro onde vagabundos peixes esqueletos rodopiam ou se postam em frente a casas inabitáveis mas entupidas de tua coleção de segredos, ó Goeldi: pesquisador da noite moral sob a noite física. Ainda não desembarcaste de todo e não desembarcarás nunca. Exílio e memória porejam das madeiras em que inflexivelmente penetras para extrair o vitríolo das criaturas condenadas ao mundo. És metade sombra ou todo sombra? Tuas relações com a luz como se tecem? Amarias talvez, preto no preto, fixar um novo sol, noturno; e denuncias as diferentes espécies de treva em que os objetos se elaboram: a treva do entardecer e a da manhã; a erosão do tempo no silêncio; a irrealidade do real. Estás sempre inspecionando as nuvens e a direção dos ciclones, Céu nublado, chuva incessante, atmosfera de chumbo são elementos do teu reino onde a morte de guarda-chuva comanda Poças de solidão, entre urubus. Tão solitário, Goeldi! mas pressinto no glauco reflexo furtivo que lambe a canoa de teu pescador e na tarja sanguínea a irromper, escândalo, de teus negrumes uma dádiva de ti à vida. Não sinistra, mas violenta e meiga destas cores compõe-se a rosa em teu louvor.
Carlos Drummond de Andrade ANDRADE, Carlos Drummond de. Carlos Drummond de Andrade:poesia e prosa. Introdução Afrânio Coutinho. 8.ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 278-27
Escrito por Luciene Guimarães às 11h57
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MESSAGE IN A BOTTLE

Bem no meio das montanhas, inventei um mar, ali onde o olho se perde no azul. Nessas ondas e vindas, já engarrafei mensagens e as enviei ao léu esperando chegar a outras margens, a algum porto. Ali, onde morros e marolas se confundem, já entrevi o melhor de mim. Uma solidão no meio do caminho, me fez tropeçar, e então fiquei. A ver navios.
Escrito por Luciene Guimarães às 21h56
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GAL nos tempos idos de Baby, índiateuscabelos, quemquiservatapá,discovoador, e antes de meunomeégallllllllllll.
Escrito por Luciene Guimarães às 18h49
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Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também pra lugar algum, meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem... tu não te moves de ti...
(Hilda Hilst - Tu não te moves de ti)
Escrito por Luciene Guimarães às 13h39
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CArta
 Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.
É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na CultUra, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.
Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.
E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.
Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/ e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido.
Pausa. (Caio Fernando Abreu).
Escrito por Luciene Guimarães às 22h10
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Foto de Pedro Martinelli - Ilha de Marajó
"la responsabilidad de tener ojos cuando otros los perdieron!"
Essa frase aí é do escritor português Jose´Saramago sobre seu livro "Ensaio sobre a Cegueira". Diz que "ver" não é enxergar, pois se vemos, são com os sentidos; com a a alma; pois os olhos... esses são mudos.
Escrito por Luciene Guimarães às 13h48
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Se a imprensa só vive de "agoras", aqui a gente pode falar do "depois". Coisa linda que foi esse espetáculo do grupo instrumental paulista Orquestra Popular de Câmara aqui em BH, na Pça . da Liberdade! Tava de arrepiar, a voz da Mônica Salmaso e o som de todos os outros talentos! E de pensar que uma viagem ao Rio Negro inspira uma canção, é só uma amostra do que a arte pode fazer nas pessoas. Feliz de quem escuta!
Escrito por Luciene Guimarães às 18h54
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Frida Kahlo
LIMITES AO LÉU
POESIA: "words set to music" (Dante via Pound), "uma viagem ao desconhecido" (Maiakovski), "cernes e medulas" (Ezra Pound), "a fala do infalável" (Gothe), "linguagem voltada para a sua propria materialidade" (Jakobson), "permanente hesitação entre som e sentido" (Paul Valery), "fundação do ser mediante a palavra" (Heidegger), "a religião original da humanidade" (Novalis), "as melhores palavras na melhor ordem" (Coleridge), "emoção relembrada na tranquilidade" (Wordsworth), "ciência e paixão" (Alfred de Vigny), "se faz com palavras, não com ideias" (Ricardo Reis/Fernando Pessoa), "um fingimento deveras" (Fernando Pessoa), "criticism of life" (Mattew Arnold), "palavra-coisa" (Sartre), "linguagem em estado de pureza selvagem" (Octávio Paz), "poetry is to inspire" (Bob Dylan), "design de linguagem" (Decio Pignatari), "lo imposible hecho posible" (Garcia Lorca), "aquilo que se perde na tradução" (Robert Frost), "a liberdade da minha linguagem" (Paulo Leminski)...
Escrito por Luciene Guimarães às 00h56
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Liiindo projeto:
edição comemorativa do ano do Brasil na França, divulgação da revista Mininas, em Paris
http://www.mininas.com.br
Escrito por Luciene Guimarães às 17h15
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Manuscrito de Julio Cortázar
UNA CARTA DE AMOR
Todo lo que de vos quisiera es tan poco en el fondo porque en el fondo es todo,
como un perro que pasa, una colina, esas cosas de nada, cotidianas, espiga y cabellera y dos terrones, el olor de tu cuerpo, lo que decís de cualquier cosa, conmigo o contra mía,
todo eso es tan poco, yo lo quiero de vos porque te quiero.
Que mires más allá de mí, que me ames con violenta prescindencia del mañana, que el grito de tu entrega se estrelle en la cara de un jefe de oficina,
y que el placer que juntos inventamos sea otro signo de la libertad. ** AFTER SUCH PLEASURES
Esta noche, buscando tu boca en otra boca, casi creyéndolo, porque así de ciego es este río que me tira en mujer y me sumerge entre sus párpados, qué tristeza nadar al fin hacia la orilla del sopor sabiendo que el placer es ese esclavo innoble que acepta las monedas falsas, las circula sonriendo.
Olvidada pureza, cómo quisiera rescatar ese dolor de Buenos Aires, esa espera sin pausas ni esperanza. Solo en mi casa abierta sobre el puerto otra vez empezar a quererte, otra vez encontrarte en el café de la mañana sin que tanta cosa irrenunciable hubiera sucedido. Y no tener que acordarme de este olvido que sube para nada, para borrar del pizarrón tus muñequitos y no dejarme más que una ventana sin estrellas.
Escrito por Luciene Guimarães às 22h54
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Norah Jones

Uma deliciosa voz e uma serenidade estampada no rosto herdada de uma cultura milenar, ela é filha do indiano Ravi Shankar.
Escrito por Luciene Guimarães às 13h25
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